RESUMO


  O controle homeostático dos níveis de sódio e água e da pressão sangüínea envolve uma complexa interação hormonal e neural. Nos últimos 30 anos diversos estudos se voltaram à análise da participação do coração neste mecanismo. Os miócitos cardíacos, principalmente aqueles que compõem o complexo átrio-auricular produzem um hormônio denominado Fator Natriurético Atrial (FNA), responsável pelo aumento da diurese com excreção de sódio e diminuição da pressão arterial. A compreensão dos mecanismos envolvidos no controle da secreção cardíaca tem como umas das premissas fundamentais o conhecimento minucioso da morfologia e função das estruturas do complexo átrio-auricular.
O objetivo do presente trabalho foi estudar aspectos morfoquantitativos do complexo átrio-auricular da cobaia. Utilizamos para tanto, cobaias jovens e adultas, de ambos os sexos. Através de análises mesoscópicas (preparações laminares), ultra-estruturais [microscopia eletrônica de transmissão, microscopia eletrônica de varredura; e de técnicas de marcação citoquímica (Peroxidase-antiperoxidase) e topocitoquímica (vermelho rutênio, azul alcian e lantânio)] e análise morfométrica. Analisamos a arquitetura miocárdica e vascular, o relevo da superfície endocárdica, a ultra-estrutura dos miócitos, a permeabilidade do espaço intercelular, o plexo nervoso subepicárdico, e a presença e localização do FNA.  Finalmente, comparamos morfométricamente as superfícies endocárdica e epicárdica. Com esta metodologia, observamos que o arranjo muscular nos átrios é constituído por feixes musculares organizados uniformemente, enquanto que nas aurículas os feixes musculares se concentram em traves multidirecionais.  Quanto ao arranjo vascular arterial, os átrios apresentam uma rede alongada, uniforme e densa; as aurículas apresentam uma rede mais densa e irregular, com vasos tortuosos e espaços intervasculares estreitos. A superfície endocárdica tanto dos átrios como das aurículas mostrou saliências dos núcleos das células endoteliais, sendo nítidos os limites intercelulares.  Observamos também saliências semelhantes a microvilos. A análise das eletronmicrografias demonstrou a presença de grânulos eletrondensos localizados preferencialmente na região perinuclear e próximo a mitocôndrias, complexo de Golgi e miofilamentos. Os espaços intercelulares mostraram-se permeáveis. O plexo nervoso subepicárdico está constituído por 846  ± 201 neurônios, com tamanho médio de 322 ± 10 µm², distribuídos em gânglios com formas variadas em regiões específicas da parede posterior do átrio. A relação de comprimento entre as superfície externa e interna foi de 1:1 nos átrios e 1:2,6 nas aurículas. Concluímos que a estrutura muscular e vascular, bem como o relevo da superfície interna dessas câmaras cardíacas se assemelham a arquitetura dos órgãos glandulares: uma densa trama vascular associada a um complexo relevo interno das aurículas o que aumentaria muito a sua superfície interna e, consequentemente, a sua capacidade de secreção. Acreditamos que estes achados acerca do complexo átrio-auricular são importantes, visto que tem-se observado em trabalhos relacionados às cirurgias cardíacas uma crescente preocupação com os efeitos agudos e crônicos da diminuição na liberação do FNA e consequente desequilíbrio nas funções renais ligadas ao controle do fluido corporal, decorrentes de cirurgias cardíacas onde se procede a uma retirada das aurículas.

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