O
controle homeostático dos níveis de sódio e água,
e da pressão sangüínea envolve uma complexa interação
hormonal e neural. Nos últimos 30 anos diversos estudos se voltaram
à análise da participação do coração
neste mecanismo.
A
cobaia (Cavia porcellus) é um modelo funcional e anatômico
muito utilizado em pesquisas relacionadas ao coração (ALEZAIS,
1903; DUMAS, 1953; FROGER, 1966; COOPER & SCHILLER, 1975; CHIMOSKEY
et al., 1984), destacando-se aqui aquelas referentes as atividades neuroendócrinas.
Na literatura há referências a numerosos trabalhos com diferentes
enfoques quanto aos mecanismos morfofuncionais da atividade cardíaca:
inervação autonômica do miocárdio, o sistema
de condução, o plexo cardíaco subepicárdico
e um número tão extenso quanto variado de trabalhos referentes
as atividades endócrinas do coração.
O
primeiro relato na literatura sobre este tema aponta a presença
de grânulos semelhantes aqueles de secreção nos átrios
e aurículas do coração (KISCH et al. 1956). A partir
deste trabalho surgiram outros que demonstraram a presença de grânulos
específicos localizados nos miócitos atriais. PALADE (1961)
descreveu esses grânulos como medindo entre 100-250nm de diâmetro,
contendo material denso, homogêneo ou finamente granular, envolvido
por membrana, sem se ater, entretanto, à sua natureza secretória.
Foi a partir das pesquisas de DE BOLD et al. (1981), que o problema foi
melhor equacionado. Estes autores, injetando extratos de átrios
em ratos, observaram que ocorria um grande aumento na diurese com excreção
renal de sódio, diminuição da pressão arterial
e aumento do hematócrito; o mesmo não acontecia ao se injetar
extrato de ventrículo. Neste mesmo trabalho DE BOLD sugere a denominação
desta substância desconhecida como Fator Natriurético Atrial
(FNA). Posteriormente, outros autores passaram a denominar diferentemente
esta mesma substância: cardionatrina (FORSSMANN et al., 1983), auriculina
(MAACK et al., 1984), e atriopeptina (CURRIE et al., 1984), diferindo entre
si pelo tamanho da cadeia de aminoácidos.
Todos
os trabalhos relacionados às atriopeptinas serviram para definir
o coração como um órgão endócrino, no
sentido clássico da palavra, isto é, o coração
responde a estímulos funcionais, como a distensão das paredes
atriais, aumento do volume intravascular ou taquicardia, liberando na corrente
sanguínea sua mensagem química que atua em diversos órgãos
(AARDAL & HELLE, 1991).
A
atriopeptina é sintetizada e armazenada em grânulos atriais
específicos localizados no sarcoplasma perinuclear intimamente associados
às mitocôndrias e à superfície do retículo
endoplasmático liso na região de Golgi (PALADE, 1961). Modernas
técnicas bioquímicas foram utilizadas para extrair, purificar
e identificar quimicamente este peptídeo. A forma circulante no
homem é uma cadeia de 28 aminoácidos (KANGAWA & MATSUO,
1984), que é idêntica à do cão (OIKAWA et al.,
1985) mas é um pouco diferente nos roedores (FLYNN & DAVIES,
1985).
É
vasta a literatura a respeito das atriopeptinas, que tratam sobre fatores
que afetam sua secreção, efeitos sobre a função
renal, efeitos sobre outros hormônios e efeitos sobre o sistema nervoso
central. Entretanto, ainda não foi equacionado satisfatoriamente
o mecanismo de liberação deste fator para a corrente sanguínea.
A
compreensão dos mecanismos envolvidos no controle da secreção
cardíaca tem como uma das premissas fundamentais o conhecimento
minucioso da morfologia das estruturas musculares e nervosas envolvidas,
inclusive os plexos nervosos do coração responsáveis
pela liberação de diferentes neuropeptídeos. Assim,
nos deparamos com a falta de dados descritivos a respeito da morfologia
do plexo subepicárdico e o arranjo tridimensional da musculatura
principalmente das aurículas, elementos estes que estão diretamente
relacionados aos mecanismos de secreção do fator natriurético
atrial.
2.
Literatura
KISH (1956) ao analisar o coração da cobaia, descreveu a presença de corpúsculos envolvidos por membrana dupla, com o diâmetro aproximado de 200 Å, encontrados apenas nas aurículas.
PALADE (1961) descreveu a presença de numerosos grânulos nos miócitos atriais de ratos. Segundo este autor, estes grânulos medem de 100 a 200mµ de diâmetro e localizam-se na região perinuclear, próximo à mitocôndrias e ao complexo de Golgi e são raramente encontrados nos miócitos dos ventrículos.
JAMIESON & PALADE (1964) em seus estudos em corações de rato, camundongo, cachorro, gato e humano, observaram a presença de grânulos eletrondensos no complexo átrio-auricular e sua ausência nos miócitos ventriculares. Descreveram que estes grânulos estavam mais concentrados na região perinuclear e em íntima associação com o complexo de Golgi, sugerindo que tais estruturas poderiam apresentar natureza secretória.
BERGER
& RONA (1971) propuseram uma tipificação dos grânulos
atriais em tipos A, B, C e D, onde os do tipo A possuem conteúdo
muito denso e algumas vezes retraído, deixando um halo entre este
e a superfície interna da membrana; os do tipo B apresentam-se pálidos
e fibrogranulares; os do tipo D caracterizam-se pelo menor diâmetro
e conteúdo denso e os do tipo C são corpos residuais.
MAGUIRE
(1972) analisou a superfície endocárdica e os forames venosos
mínimos das câmaras cardíacas de camundongos. Seus
estudos demonstraram que o endocárdio é uma entidade complexa
e de estrutura específica, onde suas células de diferentes
aspectos morfológicos (amplas margens e projeções)
o diferem consideravelmente do endotélio vascular. Os orifícios
venosos encontrados aprerentava diferentes diâmetros. Concluiu sugerindo
que os forames de menor diâmetro podem representar artefato de técnica,
visto que durante a preparação para microscopia eletrônica
de varredura pode ocorrer enrugamentos da superfície endocárdica.
CANTIN
et al. (1979) estudaram diferentes espécies de mamíferos
(camundongo, rato, hamster, cobaia, coelho, gato jovem e idoso) e observaram
que o número de grânulos atriais específicos foi maior
no átrio direito do rato e menor no átrio direito da cobaia.
No hamster, coelho e gato jovem, o átrio esquerdo apresentava maior
número de grânulos.
DE
BOLD et al. (1981) analisaram em ratos os efeitos da administração
de extrato atrial e ventricular, e observou que nos animais que receberam
o extrato atrial ocorreu uma rápida elevação na excreção
de sódio (trinta vezes mais), urina (dez vezes mais) e potássio
(duas vezes mais). Não observaram o mesmo efeito após a administração
de extrato ventricular. Concluiram que o extrato atrial continha um potente
inibidor da reabsorção renal de NaCl.
FORSSMANN
et al. (1984) estudaram o complexo átrio-auricular de cachorro e
verificaram que as células atriais produzem e armazenam um peptídeo,
a cardiodilatina. Avaliando seus efeitos sobre a musculatura lisa das artérias
aorta, renal e mesentérica inferior e sobre as funções
renais, observaram que a aorta apresentou-se mais sensível à
ação vasorelaxante do peptídeo. A cardiodilatina mostrou
ainda potente ação diurética e natriurética.
VARESS & SONNERBERG (1984) observaram em em ratos que a remoção da aurícula direita reduz a liberação do fator natriurético atrial (FNA) na ocorrência de hipervolemia.
BIANCHI et al. (1985) através de radioautografia, detectaram a presença do FNA na glândula supra-renal, nos hepatócitos, vilosidades intestinais, na camada muscular dos colos, células epiteliais do corpo ciliar, vasos renais e pulmões de ratos. Os autores sugeriram que a presença do FNA nestes órgãos indica importantes efeitos hemodinâmicos nos rins, pulmões, fígado e glândulas supra-renais, e ação também na regulação da água e transporte de íons no intestino delgado, e também efeitos metabólicos no fígado.
CHAPEAU
et al. (1985) observaram através de marcação imunohistoquímica
e imunocitoquímica a presença do FNA (porção
C-terminal) no complexo átrio-auricular de mamíferos (rato,
camundongo, cobaia, hamster, coelho, gato, cachorro e humano), bem como
em anfíbios (rã) e peixes. Registraram que a aurícula
direita do rato apresentava maior intensidade de marcação,
e que o complexo do lado direito continha maior número de grânulos
que o esquerdo. De modo geral, observaram que o gradiente de densidade
de grânulos era decrescente da superfície subepicárdica
ao endocárdio.
DE
BOLD (1985) na sua revisão da literatura, sugere que o FNA desempenharia
suas funções regulatórias de acordo com as necessidades
de cada espécie.
PAGE
et al. (1986) em seus estudos em camundongos, conseguiram evidenciar através
de secções ultrafinas e criofratura, as bases ultra-estruturais
do processo de exocitose do FNA. Segundo esses autores, a fusão
dos grânulos atriais contendo o hormônio com as caveolas seriam
o caminho para a sua extrusão.
PARDINI et al. (1987) descreveram a localização, distribuição e projeções dos neurônios dos gânglios intracardíacos de ratos, através de marcação retrógrada. Eles descreveram quatro grupos distintos: a- entre a veia cava superior e a aorta; b- septo interatrial (parte superior); c- parede posterior do átrio esquerdo e d- septo interatrial (parte inferior). Os autores sugeriram uma relação entre estes neurônios e o sistema de condução do coração.
IIDA
et al. (1988) estudaram os efeitos da monensina sobre a cinética
dos grânulos atriais. Seus achados mostraram que a monensina estimula
a interação entre os grânulos atriais e os microtúbulos,
promovendo um deslocamento dos grânulos das regiões perinucleares
em direção à periferia celular.
GOETZ
(1988) descreveu os efeitos da atriopeptina nos sistemas cardiovascular,
renal, endócrino e neural, destacando que, provavelmente, a atiopeptina
agiria de maneira interativa com diversos órgãos de modo
a regular as funções cardiovasculares e o balanço
hídrico do corpo.
SKEPPER
et al. (1988) analisaram a aparente heterogeneidade dos grânulos
atrias específicos em ratos e sugeriram que as variações
na ultra-estrutura e na intensidade da marcação imunocitoquímica
seriam devidas aos diferentes ângulos de secção através
dos grânulos.
WILDEY
et al. (1988), a partir de seus estudos em ratos, concluiram que a ativação
do FNA não é um evento intracelular, mas que ocorresse
provavelmente após a liberação do pró-hormônio.
GILLOTEAUX
(1989) em seus estudos sobre o endotélio de ratos (embriões),
propôs que este revestimento seria um local de transporte e ativação
do FNA, antes de sua liberação na corrente sanguínea.
SKEPPER
et al. (1989) utilizaram ratos em tres tipos de experimentos, a fim de
analisar o comportamento do FNA. Um grupo de animais foi submetido a uma
vagotomia cervical bilateral, outro grupo a uma expansão volumétrica
das paredes atriais e terceiro grupo, a uma combinação de
expansão volumétrica e vagotomia. A análise da concentação
FNA imunoreativo demonstrou que havia uma diminuição desta
concentração no complexo do lado direito frente a uma expansão
volumétrica e vagotomia bilateral isoladamente. Entretanto, a combinação
da expansão e vagotomia provocava uma substancial diminuição
desta concentração em ambos os lados. As análises
ultra-estruturais mostraram que nos animais submetidos a uma expansão
volumétrica, os grânulos atriais específicos encontravam-se
em maior concentração na periferia celular. Não observaram
evidências de fusão com as cavéolas ou túbulos-T.
Nos animais submetidos à vagotomia, ocorreu uma diminuição
pronunciada no número de grânulos no complexo átrio-auricular
direito, sendo mais marcante no grupo de animais submetido a expansão
mais vagotomia.
THIBAULT
et al. (1989) analisaram em ratos o processo de clivagem do FNA, e obervaram
que este processo não acontecia nem no complexo de Golgi e nem nos
grânulos.
AARDAL
& HELLE (1991) fizeram uma revisão sobre os aspectos endócrinos
do miocárdio e destacaram que a regulação do excesso
de volume sanguíneo parece ser mediado pelas atriopeptinas que relaxariam
a musculatura lisa da aorta e outras artérias de grande calibre.
Relataram ainda que, além de sua ação natriurética,
estas atripeptinas também promoveriam uma perda líquida via
intestinal.
CHO
et al. (1991), sugeriram em seus estudos em coelhos, que o principal estímulo
para liberação do FNA seria o encurtamento das fibras musculares
atriais.
MERCEDES
et al. (1991) analisaram os efeitos das modificações do cálcio
intracelular na liberação do FNA e concluíram que
este íon, embora indispensável no processo de excitação-contração,
não é essencial na liberação basal do FNA.
GILLOTEAUX
et al. (1991) estudaram em hamsters (feto, neonato e adulto), através
de imunomarcação ultra-estrutural, a trajetória do
FNA do miócito atrial até a corrente sanguínea. Confirmaram
que o FNA é liberado na circulação via exocitose e
que o revestimento endotelial pode desempenhar um papel importante no transporte,
ativação e liberação deste hormônio.
LACHANCE
& GARCIA (1991) avaliaram em ratos, os efeitos da estimulação
adrenérgica e da pressão das paredes atriais na liberação
do FNA. Propuseram que cada umas destas situações pode, de
per se, induzir a secreção deste hormônio, e que as
duas situações ocorrendo concomitantemente, potencializariam
suas respostas secretórias.
MOUTON
(1992) sugere que os conhecimentos obtidos sobre o coração
como órgão endócrino devem se voltar não apenas
para a elucidação de seus mecanismos de ação,
mas também para uma elaboração e desenvolvimento de
terapêuticas mais racionais nas desordens circulatórias.
SCHIEBINGER & GREENING (1992) analisaram a interação entre o estímulo mecânico e hormonal na liberação do FNA, utilizando norepinefrina, endotelina e vasopressina. Verificaram que a endotelina aumenta a secreção do FNA como resposta à distensão das paredes do complexo átrio-auricular durante o aumento volumétrico do plasma.
SEUL et al. (1992) observaram em ratos, que o aumento do volume e consequente distensão-redução das paredes do complexo átrio-auricular, produziam um aumento na secreção do FNA predominantemente no complexo do lado direito. Inferiram que o complexo direito e o esquerdo poderiam ter diferentes mecanismos de controle, no que se refere à homeostase do volume líquido do corpo.
STEWART et at. (1992) concluíram em seus estudos em cachorros, que a retirada bilateral das aurículas elimina a liberação do FNA e bloqueia a excreção renal de água e sódio frente a um aumento agudo do volume plasmático. Eles sugerem que esta resposta é resultado das alterações mecânicas nas paredes do complexo átrio-auricular devido ao aumento rápido do volume plasmático.
AVRAMOVITCH et al. (1995) analisaram as características morfométricas dos grânulos atriais específicos, em modelo experimental de insuficiência cardíaca congestiva desenvolvido em ratos, e observaram que a quantidade de grânulos próximo à superfície celular aumentava em relação àqueles próximos ao complexo de Golgi, e que havia um percentual maior de grânulos pequenos em relação aos de maior diâmetro.
PAUZA
et al. (1997) estudaram em ratos e cobaias os aspectos morfológicos
do plexo do hilo do coração, localizado abaixo das artérias
pulmonares. Ao contrário do plexo cardíaco subepicárdico,
este plexo não se encontra recoberto pelo epicárdio. Os autores
relataram a existência de dois tipos celulares envolvidos, neurônios
unipolares e multipolares, não relacionando entretando, esses achados
à função.
YOSHIHARA
et al. (1998) analisaram pacientes submetidos à cirurgia cardíaca
para tratamento da fibrilação atrial (“cirugia de Cox” ou
maze procedure), a fim de avaliarem as causas da retenção
de líquido típica do pós-operatório imediato
deste tipo de procedimento cirúrgico. Verificaram que os pacientes
apresentavam uma diminuição na concentração
do FNA no plasma sanguíneo no pós-operatório e mesmo
em períodos crônicos, e que esta diminuição
provavelmente reduziria as respostas dos rins à hipervolemia.
3.
Proposições
Nos
propomos neste trabalho a analisar os seguintes aspectos do complexo átrio-auricular
em cobaias:
1.
Estudar tridimensionalmente a arquitetura do miocárdio, através
de preparações laminares.
2.
Estudar a microvasculatura, através do método de microscopia
eletrônica de varredura.
3.
Estudar o relevo da superfície endocárdica, através
do método de microscopia eletrônica de varredura.
4.
Estudar a ultra-estrutura dos miócitos, através do método
de microscopia eletrônica de transmissão.
5.
Estudar a permeabilidade do espaço intercelular, através
de técnicas topo-citoquímicas analisadas ao microscópio
eletrônico de transmissão.
6.
Estudar o plexo nervoso subepicárdico, através dos métodos
de marcação pelo NADH e Acetilcolinesterase.
7.
Estudar a presença e localização do fator natriurético
atrial, através dos métodos de microscopia de luz e microscopia
eletrônica de transmissão.
8.
Comparar morfometricamente as superfícies endocárdica e epicárdica.
4.
Materiais e Métodos
Foram
utilizadas cobaias (Cavia porcellus), jovens a adultas de ambos os sexos,
pesando entre 500-700g, doadas pela Diretoria Técnica de Apoio ao
Ensino e a Pesquisa da Faculdade de Medicina da Universidade de São
Paulo.
Para
a análise da arquiteura das fibras musculares do complexo átrio-auricular
utilizamos cinco animais que foram anestesiados e sacrificados após
exposição por cerca de 5 minutos em câmara de
saturação com éter sulfúrico. Após abertura
da caixa torácica, exposição do coração
e secção da veia cava caudal, as câmaras cardíacas
foram lavadas com solução salina (NaCl 0,9%), através
dos ventrículos. Em um animal foi injetado alginato (material elástico
para impressão) nos átrios com o objetivo de manter a forma
das cavidades atriais mesmo estando vazias. O preparado anatômico
foi fixado com formol a 10% em tampão fosfato de sódio
(0,1M, pH 7,3), por 5 dias. Os corações foram cuidadosamente
removidos e os ventrículos retirados através de uma secção
imediatamente abaixo do sulco coronário. O Jeltrate foi retirado
da cavidade atrial após uma secção frontal de suas
paredes e em seguida, os átrios foram corados como preparado total
de membrana pela técnica do Azo-carmim B (1g:200ml) para evidenciação
das fibras musculares, e a seguir, procedeu-se à desidratação
em série crescente de álcoois e posterior diafanização
pelo benzol. Para o exame do arranjo dos feixes de fibras musculares, as
cavidades foram amplamente abertas e observadas ao microscópio estereoscópico
Zeiss com aumento de 4 a 20 vezes e fotografado em sistema de análise
de imagem1.
Para
o estudo da angioarquitetura do complexo átrio-auricular 5 corações
foram perfundidos com solução tampão heparinizada
(1mg:300ml), foi injetado, através da aorta, resina a base de metacrilato
(Mercox), que apresenta um grau de retração de menos de 1%.
Os blocos coração-pulmão foram retirados e colocados
em água a 40-50º C, durante 2 horas, para polimerização
da resina. O material foi imerso em solução de KOH a 20%
até a completa corrosão dos tecidos, sendo o molde resultante,
lavado em água; após secar à temperatura ambiente,
os moldes foram montados em suportes metálicos e metalizados com
ouro usando o aparelho Balzers-CSD-240. O exame foi realizado em microscópio
eletrônico de varredura Jeol JSM-6100, pertencente ao Instituto de
Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo.
Para
análise da superfície interna dos átrios e aurículas,
6 animais foram perfundidos através dos ventrículos com uma
solução de NaCl 0,16M, KCl 5,97nM e MgCl 10nM (GRONINGEN
et al. 1991) com heparina (1mg:300ml), sendo mantidos imersos na mesma
solução por mais 20 minutos. O objetivo dessa técnica
foi o de promover um relaxamento muscular, a fim de se evitar enrugamentos
na superfície interna dos átrios e aurículas. Logo
após, foi injetada, através dos ventrículos, uma solução
fixadora constituída de 2,5% de glutaraldeído, 2,0% de paraformaldeído
em tampão fosfato de sódio 0,1M, pH 7,3. Os corações
foram seccionados no nível do plano valvar e os conjuntos átrio-auriculares
mergulhados no mesmo fixador a 4ºC por cerca de uma semana. A superfície
interna dos átrios e aurículas foi então exposta,
lavada com o auxílio de uma seringa, com solução tampão
fosfato de sódio (0,1M, pH 7,3). Os preparados totais foram desidratos
em série crescente de álcoois a partir do 70º e secos
pelo método do ponto crítico do CO2, em um aparelho
Balzers-CPD-010, montados em suporte apropriado e metalizados com ouro
através de um aparelho Balzers-CSD-240. O exame dos espécimes
foi realizado em um microscópio eletrônico de varredura Jeol
JSM 6100 do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade
de São Paulo.
Análise
dos aspectos ultra-estruturais dos miócitos atriais foi feita de
acordo com o seguinte protocolo: após anestesia de 3 animais com
éter sulfúrico, procedeu-se à perfusão com
solução salina heparinizada (1mg/300ml de solução),
através dos ventrículos. Os átrios e aurículas
foram reduzidos a fragmentos de cerca de 1 mm3. Alguns fragmentos
foram fixados em glutaraldeído a 5% em tampão cacodilato
(0,2M, pH 7,3) e outros fragmentos, em solução Karnovsky
(parafolmaldeído 8%, glutaraldeído 50%, em tampão
cacodilato-0,2M, pH 7,2) mais 25 mg de CaCl2, durante 3 horas.
Os fragmentos foram lavados 3 vezes em tampão cacodilato (0,1M,
pH 7,3) por 5 minutos cada, e pós-fixados em tetróxido de
ósmio a 1% e a 2% em tampão cacodilato (0,1M, pH 7,3), durante
2 horas. Os fragmentos foram deixados à noite em solução
de acetato de uranila a 0,5% com sacarose (540mg/100ml) e após lavagem
em tampão cacodilato, foram desidratados em série crescente
de álcoois (álcool 70º, álcool 70º + uranila
à 1%, álcool 95º, álcool 100º e óxido
de propileno) e incluídos em resina Epon[1],
com embebição prévia ema solução 1:1
de resina mais óxido de propileno, durante 8 horas, sob rotação.
A seguir, foram embebidos em resina pura durante 5 horas e finalmente incluídos
na mesma, em formas de silicone a 60º C, durante 5 dias. Cortes
ultrafinos foram obtidos com faca de diamante, em ultramicrótomo2
e após contrastação com acetato de uranila e citrato
de chumbo foram analisados em um microscópio eletrônico de
transmissão Philips EM 400 do Laboratório de Investigação
Médica da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) e Philips EM 301,
do Instituto do Coração, da[2]FMUSP.
Com
a finalidade de estudar as superfícies e espaços entre as
células para a verificação de sua capacidade potencial
de permeabilidade, foram usadas as seguintes técnicas topo-citoquímicas:
vermelho de rutênio, azul alcian e lantânio, que serão
descritos a seguir.
4.5.1. Vermelho rutênio
Fragmentos
de átrios e de aurículas de 3 animais foram fixados em solução
aquosa de glutaraldeído a 4% em tampão cacodilato (0,2 M,
pH 7,3) com solução de vermelho rutênio1
(10 mg/10 ml de água destilada), em partes iguais, durante 1 hora,
em temperatura ambiente. Após 3 lavagens, de 5 minutos cada, em
tampão cacodilato com 7,5% de sacarose, os fragmentos foram pós-fixados
numa solução de partes iguais de tetróxido de ósmio
a 5% em água, tampão cacodilato (0,2 M, pH 7,3) e solução
estoque de vermelho rutênio, durante 3 horas. Posteriormente, os
mesmos foram novamente lavados em tampão cacodilato, 3 vezes por
5 minutos, e deixados à noite em solução de acetato
de uranila 0,5% mais sacarose (540mg/100ml). Seguiram-se os procedimentos
de rotina para microscopia eletrônica de transmissão, como
já referido anteriormente quando da descrição da ultra-estrutura.
4.5.2. Azul alcian
Os
fragmentos procedentes de 3 animais foram fixados em solução
de glutaraldeído a 4% em tampão fosfato de sódio (0,2M,
pH 6,5) mais 1% de azul alcian2,
durante 12 horas, pós-fixados em tetróxido de ósmio
2% em tampão fosfato de sódio, durante 2 horas e deixados
à noite em solução de acetato de uranila a 0,5% mais
sacarose. Entre cada passo os fragmentos foram lavados 3 vezes durante
5 min. O material foi deixado à noite em solução de
acetato de uranila 0,5% mais sacarose (540mg/100ml) e então emblocado
em resina Epon, segundo procedimento descrito anteriormente.
4.5.3. Lantânio
Os
fragmentos dos átrios e aurículas de 3 animais foram fixados
em solução de glutaraldeído a 2,5% em tampão
cacodilato (0,2M, pH 7.2) mais 1% lantânio1,
durante 36 horas, a 4º C. Após 3 lavagens, de 5 minutos cada
em tampão fosfato de sódio (0,2M, pH 7,2), foram pós-fixados
em tetróxido de ósmio a 1% em tampão fosfato de sódio,
durante 1 hora. A seguir foram lavados novamente em tampão cacodilato,
3 vezes de 5 minutos cada, e deixados à noite, em solução
de acetato de uranila a 0,5% mais sacarose (540mg/100ml). Os espécimens
foram emblocados em resina Epon como já descrito em item anterior.
Para
análise do arranjo, quantificação, morfologia e tamanho
(área do perfil celular) dos neurônios e dos gânglios
do plexo cardíaco, foi utilizada a técnica de marcação
do NADH (GABELLA, 1987) no coração de 5 animais. Após
a anestesia pelo éter sulfúrico, os animais foram perfundidos
com solução de Krebs (NaHCO3 - 1,30g; MgCl2
anidro - 0,114g; CaCl2 anidro - 0,27g; NaH2PO4H2O
- 0,165g; KCl 0,43g; NaCl - 7,05g e Glucose - 2,071g por litro), a fim
de manter a vitalidade dos tecidos. Aberta a cavidade torácica,
as câmaras atriais foram preenchidas, através dos ventrículos,
com Jeltrate, elastômero já referido. Os blocos de coração-pulmão
foram retirados e a seguir, por dissecção, os átrios
e aurículas foram separados dos ventrículos, com a retirada
do tecido adiposo e conjuntivo adjacentes. O complexo átrio-auricular
foi deixado em solução de Krebs por 30 min, sendo depois
colocado em solução de Triton-X (0,3% em solução
de Krebs) por 10 minutos, agitando-se levemente, e então lavado
por 3 minutos em 4 passagens pela solução de Krebs.
A
seguir, o complexo átrio-auricular foi mantido na solução
de incubação (25 partes de solução estoque
0,5mg/ml de Nitroblue Tetrazolium em H2O destilada, 25 partes
de tampão fostato 0,1M pH 7,3, 50 partes de água destilada
e 0,5 mg/ml de b-NADH diaforase- Gabella, 1987) por 45 minutos, sendo a
reação monitorada através de microscópio estereoscópico.
Decorrido este tempo, a reação foi interrompida pela fixação
do material em formol tamponado (tampão fosfato de sódio
0,1M, pH 7,3) a 10%. As peças foram reduzidas a preparados totais
de membrana através de dissecção sob microscópio
estereoscópico, e em seguida lavadas em água destilada, montadas
entre lâmina e lamínula em solução de glicerina
tamponada (tampão fosfato de sódio 0,2M, pH 7,3) a 70º
e examinadas ao microscópio de luz.
A contagem do número total de neurônios presentes nos átrios foi feita ao microscópio de luz, com ocular de 10X e objetiva de 40X.
O
tamanho dos corpos dos neurônios (área do perfil da projeção
do corpo dos neurônios) foi determinado utilizando-se um programa
de análise de imagem KS-300, associado a um microscópio Zeiss,
com aumento de 40X.
Para
a demonstração histoquímica da acetilcolinesterase
foi utilizado o método de KARNOVSKY E ROOTS (1964). Cinco animais
foram anestesiados com éter sulfúrico, sacrificados e perfundidos
com solução salina heparinizada. As câmaras atriais
foram preenchidas com Jeltrate, através dos ventrículos,
de modo a distender as paredes atriais e auriculares, e permitir o contato
de toda a superfície externa com as soluções. Os corações
foram imersos em solução de paraformaldeído a 2% em
tampão fosfato de sódio (0,1M, pH 6.0), mais 0,25% Triton
100-X, durante 12 horas, a 4ºC. Após 2 horas o material foi
dissecado ao microscópio estereoscópico, retirando-se o molde
de Jeltrate e também grande parte da musculatura dos átrios,
a fim de obter preparações laminares. Estas preparações
foram imersas em solução de lavagem constituída de
60g de sacarose, 200 ml de água destilada e 2 g de goma arábica
em pó, onde permaneceram durante 12 h. Posteriormente as peças
foram imersas numa solução de Isoompa (0,00685g de Isoompa
em 5 ml de água destilada), durante 20 min, e deixados em estufa
a 37º C, durante 24 horas, numa solução contendo 5 mg
de iodeto de acetiltiocolina, 6,5 ml de tampão fosfato de sódio
(0,1M, pH 6,0), 0,5 ml de citrato de sódio, 1 ml de sulfato de cobre
(30 mM), 1 ml de água destilada e 1 ml de ferricianeto de potássio
(5 mM). Em seguida procedeu-se à desidratação por
meio de duas passagens em álcool absoluto, 3 minutos cada uma, diafanizaço
em xilol, com duas passagens de 3 minutos cada e montagem em resina sintética
(Entellan-Merck), entre lâmina e lamínula, com a superfície
externa do complexo átrio-auricular para cima. Análise do
material foi feita em fotomicroscópio.
Para
analisar a presença, localização e características
do Fator Natriurético Atrial (FNA) nos miócitos do complexo
átrio-auricular, os seguintes procedimentos foram utilizados:
4.7.1. Microscopia de luz
Foram
utilizados 4 animais que foram sacrificados, após anestesia pelo
éter sulfúrico, e os corações imediatamente
retirados, lavados rapidamente em tampão fosfato de sódio
(0,1M, pH 7,3) e, em seguida, imersos na solução fixadora
(8% paraformaldeído, 0,2% ácido pícrico, tampão
fosfato de sódio-0,1M, pH 7,3). Após a remoção
dos ventrículos, dois dos átrios foram seccionados sagitalmente
e os outros dois, transversalmente. Os átrios foram fixados
por 7 horas, a 4º C, no mesmo fixador, e após lavagem em solução
tampão, foram incluídos em parafina a uma temperatura inferior
a 60ºC. Cortes semi-seriados de 7µm foram colocados em lâminas
tratadas com alúmen crômico mais gelatina e deixados em estufa
por uma semana.
O
método imuno-histoquímico utilizado foi o da peroxidase-antiperoxidase
(JANICE & BEURNE, 1983) para análise ao microscópio de
luz. O material foi colocado numa solução de 0,3% de H2O2
em tampão fosfato de sódio (0,001M, pH 7,3), durante 20 minutos,
a temperatura ambiente, para bloquear a peroxidase endógena. Os
cortes foram lavadas em tampão fosfato de sódio (0,01M, pH
7,3), 1% tampão Tris HCl (0,01M, pH 7,3), e 0,25% Triton X-100;
incubado em soro normal de coelho1
(diluição 1:20), durante 20 minutos, à temperatura
ambiente; incubado durante 24 horas, a 4º C, em anticorpo primário1
desenvolvido em cabra (diluição 1:200); lavados em tampão
fosfato de sódio, Tris HCl, Triton; incubados durante 4 horas, à
temperatura ambiente, em anticorpo secundário (Anti-Goat IgG3)
desenvolvido em coelho (diluição 1:50). Após a lavagem
em tampão fosfato de sódio, Tris HCl e Triton, os cortes
foram incubados no complexo peroxidase anti-peroxidase2
desenvolvido em cabra (diluição 1:50), durante a noite, à
temperatura ambiente e em câmara escura. A revelação
foi feita pelo DAB-H2O2 (6mg:10ml). A especificidade
da imunomarcação foi controlada excluindo o anticorpo primário
nas lâminas controle. O material foi analisado ao microscópio
de luz, sob diversos aumentos.
4.7.2. Microscopia eletrônica de transmissão
De
3 animais sacrificados após anestesia pelo éter, foram retirados
os corações que foram lavados com solução salina.
Fragmentos de átrios e aurículas foram fixados por imersão,
parte dos quais em paraformaldeído a 8% e ácido pícrico
a 0,2% em tampão fostato (0,1M, pH 7,3) e parte em paraformaldeído
a 6%, glutaraldeído a 0,5% e ácido pícrico a 0,2%
em tampão fostato (0,1M, pH 7,3), durante 4 horas, a 4º C.
O material foi parcialmente desidratado, metade dos fragmentos apenas em
álcool 70º e a outra metade em álcool 70º e 95º;
todos os fragmentos foram embebidos, sem prévia passagem pelo ósmio,
em resina LR White3.
A polimerização da resina foi obtida em estufa a 50º
C durante 48 horas. Cortes ultrafinos foram obtidos com faca de diamante
e colocados em telas de níquel revestidas com formvar. Os sítios
de ligação inespecífica foram bloqueados utilizando-se
uma solução de Tris HCl (0,02M, pH 7,2) contendo 2% de soro
bovino, 0,2% de Tween 20 e 0,1% de Triton X-100, durante 90 minutos.
A seguir, as telas foram submetidas a diversas soluções preparadas
com água desmineralizada. Inicialmente foram incubadas durante 18
horas, a 4º C em câmara úmida, no anticorpo primário1
desenvolvido em cabra, diluído em Tris HCl (0,02M, pH 7,2), 2% de
soro bovino, 0,2% de Tween 20 e 0,1% de Triton X-100 (diluição
1:50). A seguir, foram lavadas em Tris HCl (0,02M, pH 7,2) contendo 0,1%
de soro bovino, 0,2% de Tween 20 e 0,1% de Triton X-100, por 1 min; tampão
Tris HCl, 1 minuto e finalmente submetidos a 10 lavagens em tampão
Tris HCl no período de 1 hora. O material passou novamente pelo
processo de bloqueio dos sítios de ligações inespecíficas,
utilizando-se a solução de Tris HCl (0,02M, pH 7,2) contendo
2% de soro bovino, 0,2% de Tween 20 e 0,1% de Triton X-100, durante 10
minutos. As telas foram incubadas por 1 hora em Proteína-A Gold2
diluída em Tris HCl (0,02M, pH 7,2) contendo 2% de soro bovino,
0,2% de Tween 20 e 0,1% de Triton X-100. O material foi lavado em Tris
HCl (0,02M, pH 7,2) contendo 0,1% de soro bovino, 0,2% de Tween 20, 0,1%
de Triton X-100, por 1 min; tampão Tris HCl, 1 minuto e 10 lavagens
em tampão Tris HCl no período de 1 hora. Finalmente as telas
foram lavadas em água bidestilada. O grupo controle foi obtido pela
omissão do anticorpo primário. As telas foram contrastadas
com acetato de uranila por 5 minutos e analisadas ao microscópio
eletrônico de transmissão, Philips EM 400, Faculdade
de Medicina da USP.
4.8.
Comparação morfométrica entre as superfícies
interna e externa do complexo átrio-auricular
Foram
utilizados 5 animais que foram anestesiados e sacrificados conforme procedimentos
descritos anteriormente, e os corações foram retirados e
fixados em uma solução de paraformaldeído a 10% em
tampão fosfato de sódio (0,1M, pH 7,3), por 48 horas. Os
ventrículos foram separados dos complexos átrio-auriculares
que foram seccionados de acordo com diferentes planos de orientação
(3 em secção frontal, 1 secção sagital, e em
outro, secção transversal) e incluídos em parafina.
Cortes com 7µm de espessura (num total de 50 para cada coração)
foram corados pelo método de tricômico de Masson. Destas 50,
foram selecionadas 5 lâminas de cada conjunto, uma a cada dez, passando
por níveis mais ou menos equidistantes abrangendo toda a extensão
do conjunto.
As
medições foram realizadas em microscópio binocular,
acoplado a câmera de vídeo1.
As medições foram feitas por meio de um programa de análise
de imagem2
utilizando-se objetiva de 4 vezes e medindo-se o perfil interno e externo
das cavidades e do septo interatrial. O sistema foi calibrado para mensuração
em milímetros. Com este procedimento, relacionando os valores obtidos
nos dois perfis, pretendeu-se indiretamente analisar o grau de irregularidade
das superfícies interna e externa.